Em uma casa bonita, porém já acizentada vivia um homem.
Este era um homem com uma grande alma. E por esse mesmo motivo, fazia algum tempo que sentia um desapontamento dentro de si: Como encheria uma alma com este tamanho?
Ela era grande demais e as pessoas não lhe ajudavam mais a mantê-la cheia como nos tempos em que o homem era ainda uma criança. Pelo contrário, agora o mundo parecia roubar tudo o que restava de puro dentro de si.
Decidiu, então, que se fecharia para o mundo.
Sua casa tão bela, fruto de seu grande esforço em impressionar e se proteger, nunca parecera tão grande e vazia. Sua pintura exterior estava gasta, o homem já não se importava com o apreço ou desprezo das demais pessoas. Sua preocupação era preservar o interior do imóvel, onde ele viveria e se basearia para atingir seu objetivo, o único anseio de seu coração: Ter a sua alma transbordando de toda a pureza do mundo.
Buscava a resposta em todos os cantos, todos os livros, mas a única coisa que encontrou foi tristeza, uma tristeza tão grande que lhe pesou as pernas e aumentou ainda mais sua casa, a tornando consequentemente mais vazia.
E aos poucos a solidão foi tomando conta de seu coração, dos seus pensamentos e da sua alma. Sua alma estava só. O homem, já cansado, aceitou a condição.
O dia estava para amanhecer quando ele acordou com um pulo: Um barulho veio da cozinha! Alguém havia invadido sua casa, alguém veio lhe roubar. Seu coração pulsou. Pulsou como há muito não pulsava! Ele não havia escolhido o assalto, nada disso estava planejado. A sensação de estar fora do controle da situação o reviveu.
O homem levantou e andou devagar pelo corredor, pensava se seria mesmo um assalto, estranhava a idéia de uma outra pessoa ter algum poder dentro do seu lar, dentro daquele lugar tão seu.
Continuou a andar com cautela, para encontrar o meliante, e chutá-lo para fora em seu instinto mais natural. Andou novamente por algumas salas que há algum tempo não visitava, se sentiu orgulhoso novamente pela beleza de cada uma delas, dos móveis que escolheu a dedo, dos detalhes moldados por cada um dos construtores que o ajudaram a concluí-la. Sentiu a presença do intruso mais forte, seu coração batia mais rapidamente conforme a distância diminuia. Era estranho. O homem se deu conta do tempo em que passara sem sentimentos ou emoções. Seu corpo trabalhava, sentia o sangue correr em suas veias novamente.
Parou ao lado da porta e ouviu os ruídos cautelosos do seu inesperado visitante. Respirou fundo e tomou coragem para invadir a cozinha e pegar o intruso despreparado. Mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, ouviu de uma voz feminina a mais bela das canções, era uma intrusa! O homem ficou paralisado com a doçura da melodia. Aquela voz foi até o mais fundo de seu peito e não se calou, cada uma das notas entoadas entravam dentro de si e voltavam como incontroláveis sorrisos. Sua alma ia se enchendo a cada segundo que passava.
As coisas voltavam a fazer sentido, não importava quem fosse a intrusa, tudo o que o homem queria era permanecer ali, hipnotizado, sentado e sentindo a sua presença, ouvindo a sua canção. Agora ele não estava mais sozinho, ele sentia aquilo que há muito esperava, mas não possuia por desconsiderar qualquer hipótese de passividade.
Sentiu-se feliz, saboreou de cada um daqueles segundos até finalmente se dar conta de que precisava entrar de vez na cozinha e concretizar aquela felicidade tão pura;
Mas, em um súbito de lucidez, o homem hesitou. Afinal, quem era ela? O que poderia fazer com todo esse sentimento em tal situação? Ele só sentia, aquilo era simplesmente sincero; Não precisava de mais nada, não queria saber de mais nada, só queria poder continuar sentindo. Sua alma, enfim, estava cheia.
O homem havia se decidido, levantou rapidamente e adentrou o cômodo.
Entrou e se deparou com uma moça virando sua dispensa; em busca de algo para comer, imaginou; ela estava de costas e não reparou na sua presença. O homem já não estava apto a fazer mais nada além de observá-la e ouví-la cantando aquela canção tão nova, tão doce.
Ali ficou, parado, até que ela se virou e o olhou: Em um susto, largou tudo o que tinha nas mãos e calou-se. Porém, recusou o impulso de correr, envolvida por aquele tão intenso olhar.
Aquele segundo jamais acabou.
Ele a olhou no mais fundo da alma e sentiu seu mundo vivo novamente. As batidas do seu coração eram incontáveis, assim como todos os sentimentos presentes naquele olhar.
Não entendia nada do que acontecia, mas desejava aquela estranha, desejava aquele sentimento descabido, súbito.
E também de súbito, viu o olhar da moça baixar. Ela correu, pulou novamente a janela e seguiu seu destino.
O homem correu até a janela, mas tudo o que conseguiu foi vê-la partindo.
Virou-se novamente para a cozinha, sem saber o que pensar.
Nada do que enxergava lhe importava. Seu maior desejo havia sido realizado, sua alma estava cheia. Mas outra dor lhe apontou no peito: Ela estava cheia de algo que não poderia ter, que já não possuia mais. Sua alma estava cheia, mas cheia de lembranças.
As lembranças daquele segundo que jamais acabou.
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‘She’s everything I need that I never knew I wanted.
She’s everything I want that I never knew I needed.’